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O Banco, o Chão, o Sono e o Sonho

Jeudi 18 février 2016

 

Meio-dia. Ôh sole quente. Buracos na estrada.  Enfim, cheguei. Mairi, Monte Alegre da Bahia. Cinquenta léguas de Salvador, por Capim Grosso ou Baixa Grande, por onde foi. Verás, verão. Intranquilo desce, tranquila cidade. Curiosos observam.  Abram as jinelas, belas donzelas, estou chegando.

Meia-noite. Gare du Nord. Chegara afinal. Retirar mala, berimbau, pandeiro, violão e bugingangas. Brigitte, seu  papagaio não veio. Complicações na duana. Frio d´outono no seu rosto, folhas sob os pés, caídas.. Noite em Paris, primeira. Saudades. Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá.

Achou a casa do tio. A benção, Deus te abençoe, abraços, beijos. Como está comadre? Compadre tá bem? Procurar Costinha, amigo do pai.  Costinha Jururu, (gostava do apelido, ele mesmo se apelicou, preito ao jurubeba, vinho predileto). A carta do pai. Que o apresentasse  à cidade. Orgulho de ter sido o escolhdo.  Estão vendo?  A quem seu pai recomendou?  A Costinha, como Pelé fala na terceira pessoa,  não  aos bacanas  daqui.  Jururu não tem onde cair morto, mas tem amigo na capital. A todos mostrava o escrito. Com prazer e denodo pegava-o pelo braço, apresentando-o  a um e outro. Filho da  terra, de nossa  gente, da gema, dos primeiros habitantes. Sobrinho-neto do Coronel Francelino de Almeida, homem rico, morreu pobre, pedindo esmolas, por não roubar, ao contrário de muita gente boa  nascida pobre e hoje rica, sabe Deus como. Constrangedor discurso, fazer o quê?   Jeito todo seu.

Gare  du Nord.  Saint-Lazare?   Busca de hotel. Luzes na noite,  frio gélido  na  cara. Na minha cara?  Luso andar  em terras de  Luízes. Andar brasileiro na terra dos francos. Olhar moreno na blondice franca. Fumacê nos bares e cafés. Cachimbos,  cigarros, charutos, talvez diamba. O amargo da cerveja na garganta. Na telê, perdido na bruma,  montado em cavalo branco, esganando-se por  suplantar o burburinho, Adamo?, Becaud? Quem canta assim, danadamente?

E o soldado Paulo Cobra, que não é Norato, mas cutibóia, como o cipó,  (Era Koba mesmo. Não, não  me chamem de estalinista, Jaldo Caribé, hoje no reino da paz, – prefiro o inferno daqui -, me fez este alerta), arranjou-lhe a primeira questão: Um desquite, (ainda não existia divórcio). O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges, dizia a lei;  Não separe o homem o que Deus uniu,  berra a Igreja execrando  o divórcio. Criado o casamento,  arengava, opondo-se ao decreto 181  de  janeiro 24 de 1890: só Deus pode unir o homem à mulher.  Rui Barbosa vangloria-se de ter divergido do mestre D. Macedo Costa: Porque não era aturdindo as consciências com o  estrépito de improvisos violentos que havíamos de estabelecer a liberdade  religiosa:  – era pelo contrário, inquietando o menos possível as almas, e  poupando a liberdade de cultos que desejávamos firmar na máxima plenitude  e com a maior solidez, ahostilidade das tradições crentes, em um país  educado pelo cristianismo e pela superstição. Temperança,  equilibrio de Ruy;  imposição,  autoritarismo eclesial, no Império e na República, não permite o casamento religioso sem o civil. Sem direito de escolha, proibir dupla núpcias.  Religião, religião.

Com zelo e dengo um  casal criava sua única filha. Escolheu, escolheu caiu num  jovem vistoso, elegante, um pouco bandavoou mas, casou-se. Trinta dias depois, volta, chorosa e arrependida à casa dos pais. Ainda estou virgem mamãe, ainda sou moça papai. O velho pegou do revolver, da peixeira e do facão, foi encontrar o genro. Seu vagabundo, seu xibungo descarado. Que houve meu querido sogro? Você ainda me pergunta o que houve, com esta cara sem vergonha? Então você casa com minha filha e depois de um mês ela continua virgem? Hehehe, ahahahaha. Agora entendi. Como foi que eu casei com sua filha? Você casou no religioso e no  civil,  seu moleque. Pois é, meu querido sogro,  estou primeiro no religioso. Ai, meu deus, gritou o sogro, que minha velha está me devendo mais de trinta anos de cu. Hoje, depois de ter reencontrado o oficial Mauro Gelado,  no fórum em Mairi, moreno como o nome,  frio como uma talha, razão da alcunha,  tenho cá minhas dúvidas. Quem realmente o apresentou ao primeiro cliente?  Mauro, que não é Terenciano, nem poeta, nem gramático,  e única coisa que escrevia eram certidões nos mandados, sim, lhe trouxe o desquite  de João Calixto, um velho senhor casado com mulher mais jovem, que o traía, contam, com um motorista. Ficava mais na fazenda, deixando-a na rua pela educação dos filhos. Vinha à cidade trazer  leite e mantimentos ou quando lhe subia o fogo, normalmente baixo, pela calmaria própria da idade, pois apesar da fanfarronice de alguns idosos, que dá uma toda noite na sua velha, todos saem que aquilo mente como um cachorro doente. Posto que a bicha fica enzamboada, nem sobe, nem desce de vez, fica numa espécie de limbo, em estado indefinido, nem sólido, nem líquido, nem gasozo. Um dia, de supetão, pelos fundos da casa, deu de cara com o amante.  Correu a espingarda, sem tempo de atirar.  Sedutor, espavorido, fugindo, (seduzido?),  chinelos, chapéu  deixados, o crime deixa rastro. Desquite litigioso, queria, desmascarada, ver a traidora. Como se todos não soubessem. O marido, sim, o derradeiro a saber. Poderia cantar a canção:

 Mas agora eu sei

O que aconteceu

Quem sabe menos das coisas

Sabe muito mais que eu 

Traição  de estapafúrdias soluções. Portugal, 1715, Dom José assina lei. Ajudar maridos traídos descobrirem sua cornice. Quem soubesse de uma traição deveria denunciar o chifrador, colocando  chifres  em sua porta. Oferenda ao chifrudo? O coito em cama alheia  sempre foi, em qualquer tempo e lugar, crime gravíssimo, quase sempre punido com a morte, a mulher, claro,  porque na maioria das vezes o sedutor  nada sofria. A bela Costanza, não muito constante a Bonarelli, o maridão, amou Bernini e seu irmão Luigi, pérfida in bis,  e foi desfigurada a navalhada, a mando do escultor, sob o beneplácito de Matteo Barberini, ou Papa Urbano VIII, de cuja amizade um tanto quanto suspeita, gozava o artista. (será que eram amantes? Papas existiram de todo tipo, até mulher vestida de homem. Traveco, o Ronaldinho iria adorar.). Divino artista, homem demônio. O que não faz um cara  por uma chiranha!

No século XI, a infiel  era  assassinada  na praça, perante uma multidão ávida de sangue e vingança, como inda hoje se vê entre alguns  islâmicos. Tanto rigor não corrigiu o humano. Será mesmo o coito extraconjugal mais gostoso do que o papai e mamãe de cada dia? Esquimós e índios das américas mais sábios e felizes, sem saber o que é cornice,  até ofereciam suas mulheres como prova de boa hospitalidade. Fazem sua praxis o ditado, lavou tá nova. Mundo doido. Imundo. Louco mundo. Em  Hong Kong, a mulher traída pode matar seu marido desde que, com as próprias mãos, missão quase impossível, quando se pode matar de qualquer forma a amante do marido. Que discriminação!

Na Cité Universitaire. 7 L, Boulevard Jourdan, La Maison du Brésil de Lucio Costa e Corbusier .A carta do português ao amigo Quertezer (pronuncie Quertezer, oxítona. Aprenda. Na língua lusa as palavras terminadas em i (y), l, r, u e z, se não houver acento antes, são sempre oxítonas, esqueçamos esta palhaçada de imitar a pronúncia anglo-americana):  Leva ele muita coisa na cabeça e mais no coração. Merece sua ajuda.  Tira das vistas o papel, diz ao retirante. Paris não é  lugar pra gente sem dinheiro. Volte logo, se não quiser morrer de fome, aqui não é o  Brasil, sentenciou. Mal sabia que 4 anos depois, em pleno Maio de 68,  ali retornaria, desta vez  para ocupar e expulsar daquela Casa  os estudantes bolsistas,  filhinhos de papai e afilhados de políticos. Sem o menor conhecimento do sistema de operação telefônica, tomou posse da portaria. Tudo tão confuso, como a própria revolução de jovens que não sabiam o que queriam, sabendo apenas o que não queriam. A sociedade burguesa que dominava França e Europa.

KaRa de fome e sorriso nos olhos de seu povo. E língua esfarrapada em seu ouvido. A voz do sertão. Como o canto do assum-preto, negro como os cabelos d´Iracema, a virgem dos lábios de mel. O sábado menino.  Comprar rapadura, dois´tões. Sacos. Sacos de farinha, punhado apanhado, misturar na boca. Ô m´nin, danado. O olhar curioso dos roçeiros. Seu traje, seu trato. Uns veem o filho da terra, outro a lembrar-lhe  parentesco, mesmo por trás da serra. Que buscas tu, neste desertão? Voz partida, perdida a cara.

No cartório de Adsio Leal, (que não se mostrará tão leal quanto o nome diz, tu verás), o dialogo da iniciação nas coisas da justiça. A sarará grita, esperneia, arrasa.

-  Padinho, o sinhô num pode impedir  que eu receba o que é meu. Num sou mais u´a criança. O sinhô só me tem prejudicado o tempo todo. Quero tomar conta do  meu. O escrivão rebate:

- Sujeitinha mal agradecida. Devia lembrar-se do quanto eu fiz por você.

A sarará. Mulher. Mulher-mulher.

- Sujeitinha?  E o sinhô?  Um ladrão. Covarde. Correu da polícia  federal. Comunista, cagão.  Se ajoelhou  nos pés do capitão. Chorão. O inventaro  é meu, a terra é minha. Só quero o que é meu. O sinhô num pode ficar com a terra toda vida, só porque inventou de ser ventariante.

O bacharel baixou as vistas, envergonhado. Cala o escrivão sentado em sua ira. Não aguentou a catapulta. O escrivão de justiça, que nunca foi da  puridade, pelo poder, ali como se fosse.  O benfeitor da cidade. Tudo sei de lei e da justiça. Inquisidor, meu espanto.  Seguro, muito seguro. Justiça?  ora, justiça! Já fizera muito por aquela gente, dizia. Todos aqui me devem alguma coisa. Isto aqui era uma tapera. Não havia estradas. Cheguei há vinte e sete anos, em lombo de burro. Assumi o cartório. Lia até altas horas da noite. Aqui eu era tudo, porque todos eram praticamente analfabetos. Era ao mesmo tempo escrivão, delegado, juiz, promotor, advogado, professor, enfermeiro, farmacêutico, enfim, tudo, enfim. Fazia tudo.Um recibo, uma nota promissória.  Me pediam, fazia. Uma petição, tudo, enfim. Era o conselheiro. Fazia as pazes entre marido e mulher. Entre amigos que   brigavam. Tudo era eu. E ainda sou. Fiz o ginásio. Trouxe a luz. A estrada. O banco. Tudo fiz, tudo faço. Tiro Juiz. Promotor, fica quem eu quero. Advogados. Todos me seguem. Sei tudo de justiça. Nunca perdi uma questão. Quem me segue perde questão. No tribunal todos me respeitam.

- Você é um menino inteligente. Gostei de você. Conte comigo. Como ajudei aos outros, hoje, todos bem em Salvador, ajudarei você. Juízes se promoveram com minha ajuda. Eu fazia os relatórios de feitos nunca  fiscalizados pelo tribunal. Eu fiz dos promotores procuradores, dos juízes, desembargadores. Deputados, graduados na administração, todos que passaram aqui, (mostrava as mãos) estão bem. Eu os modelei, siga o exemplo deles

Abriu os braços paternais.

A busca por hotel não foi frutífera. Cheios, ou muito caros. Precisam dormir e não havia mais metrô. Os tugas não tinham como chegar à casa dos parentes. Extenuante viajar de Lisboa a Paris, fazendo o salto (cruzar a fronteira Portugal-Espanha a salto, a pé e clandestino) até pegar o trem, (eles chamam comboio), da Sud Expresso em  Hendaye na França. que partira de Santa Ifigênia para Paris.

Jovem andante, aventureiro, que te vai pela cabeça? Mocinhas casamenteiras. Não estou pa vocês. Que digam  que me querem, me amam. Que sou gostoso, um gato. Seus sexos medrosos e incompletos não me satisfazem. Virgens apavoradas, prostitutas mentais, fujais de mim. Afasta meu olhar de teus seios endurecidos. Por que mostrar-me o sexo apenas púbere? Vem-me  o orgasmo mais ligeiro, ouvindo o grito de amor de gatos no telhado. Não me atraem teus gemidos ensandecidos pelo medo. Linda morena d´olhos apertados cor de mel. De certo, cresce-me o sexo por tua pele acetinada, que se emurchece, se recolhe no seu leito, co´a frieza de teus passos, e a incerteza de teus laços.

Ele tinha entrado em casa sem que ninguém percebesse. Deitara-se. Vistas  no telhado de cujas  frestas coava-se a luz.  Os tios tinham saído. As garotas, na caça,  invadiram com alarido o ambiente.  Perguntavam  pelo primo às primas. Ouvido atento às vozes. Risos, gritinhos, gargalhadas. Meu cravo, sou tua, o jasmim de teu jardim. Me dá um beijo, te dou tudo que quiseres. Ai, se te pego, eu te mato. Eu te pego lá no mato, delícia. Trá, lá, lá, lá. Káska, hrob, Adad, rad, krk, kriz, krutý, krásny, slepý, mrtev, tev. Ya, yaô,  yô,  ka, ki, pin, pó, porã. Agon.  Amém.

La blonde tem bunda mole. La brune tem bunda grande. Tanajura que me ama. Quero ver você dar sua risada. Pavão misterioso gritando no telhado.  Raposa inebriada  pelo mel. Guaxinim chupando cana. Como gralhas no  galho da jurema. A ema gemeu no galho do juremá. Fim de l´amor, condor. Ay que mi moiro, doncellas.

Morrem as vozes, nomirsti  mundo, que morra. Mrtev, tev. výkrik, krik. No seu peito, a angústia. Abre o livro. Estuda sua primeira questão. Um desquite. “O casamento válido só se dissolve pela morte de um dos cônjuges,” dizia o Código Civil. Um divórcio à brasileira. Continuam os dois agarrados um ao outro pela lei, não podem casar novamente.  Inda uma imposição religiosa. Será deputado. Fará um projeto de lei,  casamento por tempo determinado. Não é uma sociedade como outra qualquer? Criará a poligamia. Deus permitiu a Salomão ter setecentas mulheres principais e trezentas concubinas, por que não permitiu aos outros casar e descasarem.  A poliandria também, assim era na Palmares de Ganga Zumba e Zumbi. As mulheres,  bem visto, tem vontade de dormir com mil homens.

Horus, (Chama-se Horus?, um catingueiro?). (Osiris, Horus e Isis,  a trindade. Pai, Filho Espirito Santo). Horus te chamas? O portuga, acostumado aos Manueis, Joões e Josés, pergunta admirado, enquanto lhe passava a botija de vinho para regar o bacalhau seco, engolido no sacolejo do trem.  De nossa mãe, gerado,  sobre o corpo inerme do esposirmão, pousada. Amamenta teu filho, Cheia de Graça. Em folha de revista  achado. O homem não escolhe o nome. Ele é o que aos outros lhes parece.  Nordeste.  Homem e nome são suas circunstâncias. Horus,  Único nas Alturas, o Elevado, o Distante, Senhor do Céu, o Senhor das Estrelas. Que te passa pela cabeça? Olhos chamejam, cheio de areia.

Que fazer agora? Ao compadre Hugo, uma carta escreverá. (Itambé, em ti me vejo, no Tango de Tárrega. Cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor Despertando no meu coração a saudade do primeiro amor! Plangia Calheiros do altifalante a canção d´Erotides. Dorotéia Vai à Guerra. Peça de Carlos Alberto Ratton,  sob a batuta de Álvaro Guimarães. Nonato Freire, Dorotéia. Lola di Laborda, Madalena. Produção, Eduardo Cabus. Ah, sim. Você tem de ver. Comédia um tanto quanto erótica, violenta e de amargo humor. Dorotéia (Nonato) – velha octogenária – vive com sua filha Madalena num isolamento quase total. Esta é o sustentáculo da velha: Trabalha numa firma de contabilidade. Dá comida à “mãezinha”,  lê as noticias do dia, liga-lhe o rádio, ouve suas queixas, dá-lhe o  remédio, ajuda-a a fazer xixi, é enfim, o elo de ligação com o mundo. Vida versus morte. Dorotéia é autoritária, importunante, irônica, gozadora, sarcástica, egoísta, mentirosa e ladra.    Madalena é honesta, trabalhadora, obediente e ingênua. Lendo as noticias pra sua mãe, descobre a traição do chefe. Casara-se com outra. E ela o ama. A própria velha contribuíra para sua desgraça: revelou ao seu chefe o seu maior segredo. Não era mais virgem. E Madalena cai numa realidade que ela teimava em não admitir.

Personagens e atmosfera Beckettianos. Linguagem e situações rendem homenagem a Ionesco. Obra original, entretanto, pela brasilidade. Álvaro conseguiu situar-se bem entre os dois polos da obra: Humor e violência. Equilíbrio total. E neste ponto, acredito, tenha o diretor superado o autor. Alvinho como um mágico evitou exageros, fez rir e deu seriedade ao grotesco. Um ritmo admirável. (Que o diga o professor Anatólio, imbatível caçador e  maior autoridade em ritmo teatral na Bahia.  Seu Painel da Peste, de cuja direção fui, com prazer e honra, assistente, comprovam sua autoridade. Um ritmo uno, monótono, sacudido apenas pelo chocalhar das cabras de seu sertão de Araci, afugentando a implacável, de cujo desafiador tridente saíam as cartas que ditavam a vida e morte). Aqui o ritmo vai num crescendo tão suave que não se adivinha o paroxismo a que chega no final. Encurrulados ficamos num ambiente de hospital onde tudo cheira a velhice, doença e abandono. Nonato Freire apreendeu as lições do diretor e a alma  do personagem e foi uma Dorotéia humana, divina e diabólica. Lola di Laborda um pouco reticente, mantendo-se, porém, à altura de responder aos fluidos emanados de Nonato. Vi-o no último fim de semana  em Salvador, você deve ir vê-lo,  um espetáculo gostoso  de se ver. Não posso acreditar que suporte isto aqui por muito tempo.

Treze de julho de 1971. Um dos melhores momentos do Vila.  A adaptação e montagem do Quincas Berro D´Água de Jorge Amado por João Augusto.  Quincas um dos mais interessantes personagens do escritor baiano. O mundo de Quincas com suas  tristezas e alegrias, contudo, solto, livre e leve.  Quincas Berro d`Água, o homem que soube libertar-se das peias da moral burguesa e recriar uma vida junto aos vagabundos e prostitutas, talvez, os verdadeiros donos do mundo.

O início do espetáculo contagia pela música e canto dos atores,  vontade de subir no palco e cantar com os amigos de “Berro”. Mais narrada que dialogada, a peça é perpassada por um tom nostálgico e saudoso daquele que foi o amigo de todos. Onde houvesse bar na Bahia se comentava a morte do velho Quincas. Era luto e choro. Um a um ia se inteirando da morte do velho “Berro” e se encarregando de difundir a noticia – : “É feriado na Bahia”. O palhaço Curió dilacerado anunciava na Baixa dos Sapateiros que todo o tecido do gringo Elias seria distribuído de graça pois seu amigo Quincas Berro D´Água havia  morrido. Benvindo Siqueira, deixara boas oportunidades o Rio  e veio curtir o teatro baiano, e aqui, tem feito  trabalhos maravilhosos. Curió na pele de Benvindo  ficará sempre na nossa lembrança. João Augusto atinge em vários  momentos o patético como na cena do cabaré,  apesar de um pouco longa, arrasta o público do silêncio profundo à completa hilaridade. Somos levados à meditação e ao riso, tal a firmeza com que João conduz seus atores. Um pouco prejudicado  o espetáculo  pelos iniciantes. Não foram capazes de acompanhar o ritmo dos atores mais experimentados, quem sabe, pelo curto tempo de ensaios. Em sua primeira aparição o Quincas de Wilson Melo, levou o público ao delírio. Talvez o  melhor momento da primeira parte. do espetáculo. Nilda Spencer na Otacília, mulher de Quincas,  está terrível. Quincas não poderia ter tido outra mulher. Wilson Mello, ao meu ver, o melhor ator da Bahia. Seu Quincas é quente, moleque, gracioso, sarcástico, irônico e, sobretudo, humano. Acredito ter perdido o espetáculo, na segunda parte, apesar de ser a principal, um pouco o domínio sobre o público. Diálogos, alguns,  demasiado longos e, de  certa maneira, despropositados, especialmente, algumas falas  das prostitutas Rita e Firmina. No velório de Quincas  onde as cenas patéticas deveriam existir, onde a denuncia e análise de comportamento deviam ser mais profundas, tal não aconteceu. Maior seria o rendimento se algumas cenas  da primeira parte fossem levadas na segunda, e assim não teria caído o espetáculo. O poético renasce quando os amigos de Quincas começam a despi-lo, vestindo-o com suas verdadeiras roupas e começam a dar-lhe cachaça. Aí, volta o espetáculo ao nível inicial. Aí temos a Bahia e a gente da Bahia. A segunda morte de Quincas é uma apoteose. Quincas nunca deixa de ser teimoso e enfrenta o mar e o vendaval. “cada um cava sua sepultura”, diz. É o ultimo conselho do velho filósofo, o homem que  soube livrar-se das jararacas, construir sua nova vida. JA continua a obra iniciada há alguns anos, levando ao palco as alegrias e sentimentos de pessoas simples, do povo. Não se deve perder a oportunidade de ir ver obra tão humana e creio que você irá vê-lo. Sei que gosta mais de cinema, mas o teatro é único,  arte que se não repete,  cada espetáculo diverso do anterior e do seguinte; Única arte que se pode fazer  sem qualquer outro  suporte que não o homem. Um ator e espectador. Nada mais é necessário, nem cenário, nem texto, nem luz, nem roupa, nada. Isto é o teatro. Vá ver e não se arrependerá.

Aqui tudo igual. A cidade não é grande, nem rica. Poder-se-ia ganhar algum, se o juiz não fosse como os demais. Não iria trabalhar e  encher barriga de advogado. Não muito longe do pensamento de um certo ocupante do Supremo. Todo advogado é preguiçoso, só acorda depois do meio-dia, além de  ladrão, gasta  o tempo  inventando ações com o fito de roubar os incautos. Voltando à vaca fria, a cidade, nem brega tem. Imagina, uma cidade sem brega. O brega é o circo, o cinema e até a igreja de uma cidade. É lá que os homens vão desafogar suas mágoas. Onde todos, prostitutas, proxenetas e clientes se tornam médicos, professores, psicólogos e até confessores. Uma cidade sem brega é uma cidade morta. São elas, as prostitutas que trazem, como os ciganos, lembremos de Macondo, toda a novidade do mundo civilizado. Trazem a moda que a madame, após torcer o nariz, fazem os maridos comprarem a peso de ouro nas mãos dos mascates sírios, libaneses,  todos turcos, dizem, o perfume, a seda e o último borzeguim usado pela Mistinguett em Paris. O juiz mora na capital, e só vem à comarca uma vez por semana. Há um ônibus  que chega quarta-feira. Ele  vem, em geral, neste dia. Mais ou menos às onze horas, o motorista pára bem em frente ao cartório onde também reside o escrivão. Desce o baixinho, (aqui, conhecido como Baiúca, nome de uma cachaça, famosa no momento), e vai direto ao cartório. O escriba o espera.

– Rosa, vai buscar a cerveja do doutor, diz e  a secretária corre buscar o líquido.

O escrínio do meritíssimo tem uma gaveta onde o serventuário coloca a botelha da cevada de cuja fermentação o magistrado costuma molhar a toga. Traça um traço, traga um trago. Algo como tocar fogo n´água ou dizer miolo de pote. Despachos que não despacham, mais complicam que despacham. Não são  despachos, são ebós mesmo. Mais fácil, aliás, livrar-se de um ebó que de seus despachos. Põem as partes numa encruzilhada que nenhum Tranca-Rua seria capaz de tanto. Os processos ficam assim, estado de total inércia, porque não há quem possa  interpretá-los.

O escrivão trata-o muito bem, porque, dizem, lê na sua cartilha, pois só dá despacho realmente eficaz quando o processo é de seu interesse. É verdade, o tal escriba advoga. Come dos dois lados. Existem aqui dois rábulas. Dois velhos rábulas. Nada sabem de direito.  O carapicu faz as petições e eles as assinam, e assim, o serventuário passa a ganhar dos dois  lados. Dos honorários, sua a parte do leão, aos rábulas as migalhas.  Com esta artimanha, conseguiu fazer fortuna. O tribunal sabe disso, providências? que sonho! O juiz, este, nem se fala. Até inteligente, mas completamente envilecido. Vive na sombra do serventuário.  Disse-me que há dez anos  não pega num livro. E precisa você ver com que orgulho fala disso. Além da cerveja, sua outra amiga é a cachaça. O pessoal colocou-lhe o carinhoso apelido de Dr. Baiúca, nome de uma cachaça muito apreciada na região. Ata gosta deste apelido. E é por isso que a comunidade o assimila, já que, a pinga é, nesta terra, o melhor meio de se fazer amigos e a caninha vai se tornando, de  longe, o produto brasileiro mais representativo, entre todos os que aqui produzimos. Bem que poderíamos modificar a bandeira brasileira: Toda branca, uma garrafa e a inscrição: “Viva a cana”. Não foi  a cana um dos nossos maiores produtos de exportação? Não adoçamos a Europa por longos anos?  Não enriquecemos nossos usineiros com a caninha? Ah, sim, ia-me esquecendo. Hoje temos o futebol,  arrasta  multidões, anestesiam mentes. Mas a cachaça  molha a bola  dos Pelés, os cruzados amealhados por cholos e mulatos à custa de pão e feijão.

Ainda na linha do juiz, existe aqui um cara, que de tanto beber,  já não se emborracha mais, porque, se eternizou borracho com o primeiro gole. Oto, também escrivão de justiça. Dizem até que a bebida lhe faz bem, porque lhe mantém vivo e faz milagres. Faz o milagre de, sabendo  falar, não se entende o que diz, e ao escrever, não se lê o escrito. O juiz não o  repreende,  medo de lhe ser  jogado  na cara vicio maior. Corre o boato, que além de bebum é bicha, xibungo que  aqui nem é viado, só coisa ruim, insignificante, reles.  Algum  defeito em ser baitola? Todas as profissões têm direito a ter seus maricons, não tem? Não dizem que um certo chefe de policia americano, horror e verdugo de gays, gangsters, mafiosos, comunistas e ativistas dos direitos civis gostava de queimar a rodinha com seu auxiliar? Justiça é de garantir-se, não importa que se  desmunheque. Se  é cega, pode ser tudo.  Moral ilibada?  Tão só  entrar na magistratura? Depois, solta-se a franga, torna-se mercador de sentenças. Quando a corregedora nacional do Conselho Nacional de Justiça   Eliana Calmon, declarou existir “‘meia dúzia de vagabundos”  “infiltrados na magistratura”, certamente, peço vênia,  estava errada.

As mazelas da justiça. Não só tem culpa os juízes. Todo judiciário brasileiro, toda a sociedade. Não só conjuntural, também, estrutural. Melhor dizer: existe no judiciário  “meia dúzia de homens bons”.

Um poder que não acompanhou o esforço da humanidade no caminho da democracia. Continua autoritário eantidemocrático. Sem  democracia não há transparência, sem  transparência, só  corrupção.

Mude-se as estruturas ou viveremos, eternamente,  com a “meia dúzia de vagabundos”,  magistrados, às  vezes, mas não sempre,   reféns do sistema  desde a colônia, servidores se vendendo pra cumprir, ou deixar de cumprir  o dever. Vendudos, como damas teúdas e manteúdas.

Cada povo deve encontrar seu caminho. Não se deixar embalar pelo encanto da serpente, que nos rouba  tempo e nos tiram a  capacidade de refletir.  Futebol, carnaval, novelas, entretenimentos diversos são o encanto da serpente,  pão e circo,  mais circo do que pão. Gritar, protestar, exigir ou, nada de reformas,  burocracia e ditadura. Democracia, não é o voto, muito mais que isto. Um juiz  te tem nas mãos, uma vida. Vitalício, democracia?

Um magistrado. Muito, quase infinito poder. Acabe-se com ele.   Será deputado. Apresentará um projeto de emenda à Constituição. Fim da vitaliciedade. Cargos vitalícios, que vergonha.  Rotatividade do poder. O homem não pode ficar, indefinidamente, num só cargo. Estudará e desenvolverá uma tese:  A rotatividade do poder é a  maneira mais eficaz de se evitar a corrupção. Não mais que cinco anos num só cargo ou função. Nem mesmo um policial. Fim do carreirismo até na  Armada. Ninguém mais abusará do poder.  Não haverá político  profissional.  Proibidas reeleições. Juízes, eleitos por cinco anos tão só. Desembargadores,  ministros idem.  Teria um policial coragem de cometer arbitrariedades, sabendo que  tem só cinco anos pela frente? Poder-se-ia permitir, no máximo, a recondução a cargos eletivos, passado um período de tempo. Reeleição, nunca. Nem  síndico de condomínio. Imoralidade, fonte de corrupção. Todos teriam a oportunidade de exercer o poder um dia em sua vida.

 

Continuação no livro NOITE EM PARIS, breve nas livrarias.

(Publicado sob o pseudônimo de El Carmo na Coletânea PALAVRA POR PALAVRA, Ed. Art-CONTEMP, Salvador,1992)

Ainda nos blogues:

http://deus-carmo-literatura.blogspot.com.br,

http://noite-em-paris.blogspot.com.br/

 

 In, blogue: http://www.noite-em-paris.blogspot.com.br/

APOSENTADORIA AOS 75 ANOS

Dimanche 25 octobre 2015

 

Devemos apoiar o veto da presidente ao projeto que ampliava para 75 o prazo da aposentadoria compulsória, porque além de inconstitucional é casuísta., além de tirar  do jovem a oportunidade de ascender ao serviço público, posto que mesmo tendo tempo de aposentadoria, muitos servidores permanecem no serviço público em razão do abono ou de outros incentivos. Logo o dizer que haveria economia aos cofres públicos é pura balela.

Por outro lado, quem nos garante que tão logo a oposição tome o governo, e  tudo indica que vai tomar, não volte atrás como fizeram com a CPMF criada no governo do PSDB  e logo derrubada no governo do  PT  para sangrar as finanças do governo, dificultando a administração e causando a crise que nós vivemos?  Isto nos dá exatamente a medida de como funciona o Congresso Nacional.  Lutam por interesses próprios e não pelo interesse do povo. Tenho me batido pela renovação dos quadros brasileiros e esta renovação passa por uma democratização do judiciário e ampliação do teto de aposentadoria só vai aprofundar o problema da renovação de quadros.

Neste passo, a própria reeleição deve ser questionada, analisada em debates populares para ao fim se acabar com as reeleições tanto no executivo como no legislativo. Há de se permitir apenas a recondução do politico em outros pleitos ou até mesmo a outros cargos políticos, mas nunca a reeleição para o mesmo cargo. Com isto estaremos dando oportunidade à renovação de quadros tanto no executivo, como no legislativo e no judiciário. Não esqueçamos que a renovação dos quadros contribui para o estabelecimento de certa paz e estabilidade social, que é o que mais precisamos no momento, porque permite a um maior número de pessoas entrarem no mundo de mercado, e exercer cargos políticos.

ZECA CAMARGO E CRISTIANO ARAUJO

Samedi 4 juillet 2015

Realmente não vi nada de aberrante na crônica de Zeca Camargo, de quem não sou fã, nem gosto, mas foi uma crônica onde ele relata, a insanidade da busca por heróis. Verdade seja dita, eu mesmo nunca tinha ouvido falar no Cristiano Araujo antes, que se foi muito jovem, mas não tão jovem quanto os morrem diariamente nas periferias e nem  por isto, ninguém chore.

Choramos a morte de gente que às vezes nunca vimos, e ignoramos a morte de um vizinho e mesmo de um parente. Estamos movidos pela mídia que fabrica heróis para adorarmos e  bandidos para jogarmos pedra. Somos apenas massa de manobra.

MARINA E O SEXO

Mardi 9 septembre 2014

 

 

A  Assembleia de Deus da candidata Marina Silva é contra o sexo fora do casamento. Tudo bem, é aceitável. Mas, segundo esta seita,  o sexo fora do casamento é fornicação e prostituição, não pode ser praticado por puro prazer, mas só e unicamente para a procriação e perpetuação da espécie, porque Deus teria estabelecido: « crescei e multiplicai ».
Se Marina ganhar, vai ela, como fez Constantino no Império Romano,  transformar a Assembleia de Deus em religião do Estado, passando a perseguir os católicos e outras denominações religiosas?
Irá ela proibir o sexo fora do casamento?
É questionamento a ser feito. O fundamentalismo religioso está cada vez mais forte no Brasil. Os Evangélicos quebram imagens religiosas, perseguem pessoas seguidoras da religiões de matiz africano provocando uma grande instabilidade social. Não é de guerra que precisamos para crescer como nação, mas de paz. A guerra seja ela civil ou não só traz benefícios para uma parcela ínfima da sociedade. Não esqueçamos que a Irlanda do Norte viveu durante muitos anos um clima de guerra em razão das divergências protestantes e católicos. É bom que tanto católicos quantos protestantes sigam as reais doutrinas de Jesus, que em nenhum momento pregou a guerra, a vingança ou o ódio.

E AGORA FRANCISCO?

Dimanche 17 mars 2013

ARGENTINE • Jorge Bergoglio n’est pas le pape des pauvres

Le nouveau pape a l’image d’un homme proche des pauvres et tiers-mondiste. C’est une illusion pour ce journaliste de
qui revient sur son rôle trouble dans l’affaire des enfants volés.
Jorge Bergoglio célébrant la messe du mercredi des Cendres dans la cathédrale métropolitaine de Buenos Aires, le 13 février 2013Jorge Bergoglio célébrant la messe du mercredi des Cendres dans la cathédrale métropolitaine de Buenos Aires, le 13 février 2013AFP
Parmi les centaines de courriels que j’ai reçus, j’en ai retenu un : « Je n’en crois pas mes yeux. Je suis si angoissée et furieuse que les bras m’en tombent. Il est arrivé à ses fins. C’est la personne idéale pour cacher la corruption morale, un expert ès cachotteries. » Le message est signé de Graciela Yorio, la sœur du prêtre Orlando Yorio, qui a dénoncé Jorge Mario Bergoglio comme le responsable de son enlèvement et des actes de torture qu’il a subis pendant cinq mois en 1976. Orlando est décédé en 2000 en imaginant le cauchemar qui s’est réalisé le 13 mars.

Il n’a jamais eu connaissance de la déclaration de Jorge Mario Bergoglio devant le tribunal oral fédéral n°5, où il a affirmé n’avoir appris que récemment l’existence de jeunes enfants kidnappés, après la fin de la dictature. [Un plan systématique de vols de bébés d'opposants politiques avait été mis en place entre 1976 et 1983. Les mères étaient assassinées et les enfants adoptés sous une fausse identité.] Pourtant, le tribunal oral fédéral n°6 a reçu des documents qui révèlent que dès 1979, Jorge Mario Bergoglio était au courant et qu’il est intervenu dans au moins un cas.

Lors du procès de l’ESMA [le plus grand centre de torture de la dictature], Jorge Bergoglio [alors président de la conférence épiscopale de Buenos Aires] a déclaré par écrit, concernant l’enlèvement d’Orlando Yorio et de Francisco Jalics, que ses archives ne renfermaient aucun document sur les enlèvements et disparitions. Cependant, son successeur a envoyé à la juge une copie d’un texte attestant de la réunion entre le dictateur Jorge Videla et les évêques Raúl Primatesta, Juan Aramburu et Vicente Zazpe, lors de laquelle ils se sont demandé s’il fallait ou non avouer l’assassinat des disparus. Dans son ouvrage Iglesia y dictadura [Eglise et dictature], Emilio Mignone l’a cité comme le parangon des « bergers qui ont livré leurs brebis à l’ennemi sans les défendre ni les sauver ».

Un jésuite qui se fera appeler François

Je ne suis pas certain que Jorge Mario Bergoglio ait été élu pour cacher la corruption morale qui a rendu Joseph Ratzinger impuissant. Ce qui est certain, toutefois, c’est que le nouvel évêque de Rome sera un ersatz : un succédané de mauvaise qualité, comme l’eau mêlée de farine que les mères nécessiteuses donnent à leurs enfants pour tromper la faim. Le théologien brésilien de la libération Leonardo Boff avait l’espoir que serait élu Sean O’Malley, franciscain aux origines irlandaises à la tête du diocèse de Boston. « Il s’agit d’une personne très proche des pauvres car il a longtemps travaillé en Amérique latine et dans les Caraïbes, toujours avec les pauvres. Cela montre qu’il peut être un pape différent, annonciateur d’une nouvelle tradition », avait écrit l’ancien prêtre.

Finalement, le souverain pontife ne sera pas un véritable franciscain, mais un jésuite qui se fera appeler François, comme le pauvre d’Assise. Effrayée, une amie argentine m’écrit de Berlin que pour les Allemands qui ne connaissent pas son histoire, le nouveau pape est tiers-mondiste. Légère erreur.
Sa biographie est celle d’un populiste conservateur, comme l’ont été Pie XII et Jean-Paul II : inflexibles sur les questions doctrinaires, mais ouverts sur le monde et en particulier les populations défavorisées. Lorsqu’il célébrera sa première messe dans une rue du quartier Trastevere ou dans la gare Termini à Rome et qu’il évoquera les personnes exploitées et prostituées par les puissants de ce monde qui ferment leur cœur au Christ ; lorsque les journalistes qui sont ses amis raconteront qu’il a pris le métro ou le bus ; lorsque les fidèles écouteront ses homélies récitées avec des gestes dignes d’un acteur et dans lesquelles il mêlera paraboles bibliques et parler simple du peuple, alors certains exalteront le renouveau tant espéré de l’Eglise.

Apostropher les profiteurs et prêcher la docilité aux opprimés

Au cours des 15 années passées à la tête de l’archevêché de Buenos Aires, il a fait tout cela et bien plus. Pourtant, dans le même temps, il a aussi tenté d’unir l’opposition contre le premier gouvernement qui ait – depuis longtemps – adopté une politique favorable aux couches populaires, un gouvernement qu’il a accusé d’être crispé et belliqueux car pour y parvenir, il a fallu lutter avec lesdits puissants mentionnés dans son discours.

Maintenant, il va pouvoir continuer sa mission, mais à une toute autre échelle, ce qui ne signifie pas qu’il oubliera l’Argentine.

Si Eugenio Pacelli (Pie XII) a reçu des fonds des services de renseignement américains pour soutenir la démocratie chrétienne et faire obstacle à la victoire des communistes pendant les années qui ont suivi la Seconde Guerre mondiale, et si Karol Wojtyła (Jean-Paul II) a été le premier à lutter pour la chute du mur de Berlin, le pape argentin pourra en faire autant à l’échelle latino-américaine. Son passé de militant au sein de la Garde de fer [une organisation de la jeunesse péroniste], ainsi que le discours populiste qu’il n’a pas oublié, tout cela le rend apte à discuter l’orientation de cette politique, pour apostropher les profiteurs et prêcher la docilité aux opprimés.

* Horacio Verbitsky a consacré en 2005 un livre aux liens entre l’Eglise et le centre de torture de l’ESMA : El Silencio : de Paulo VI a Bergoglio : las relaciones secretas de la Iglesia con la ESMA [Le Silence : de Paul VI à Bergoglio : les relations secrètes de l'Eglise avec l'ESMA].

Retirado do sítio: http://www.courrierinternational.com/article/2013/03/14/jorge-bergoglio-n-est-pas-le-pape-des-pauvres

Tradução será feita em breve.

O Cidadão do Mundo

Mardi 8 juin 2010

Não pretendo fazer qualquer  relação com o Cidadão Kane. Nosso homem não é tão poderoso ou tão emblemático quanto o personagem de Orson Welles, é, talvez, tão arrogante quanto aquele, mas sem o poder caracterísitco do Kane. Nascido pobre, chegou à fama e à riqueza usando mais a cabeça do que os braços, e até se considerava um pouco preguiçoso, quando se comparava com as demais pessoas que o rodeava. O que gostava mesmo era de flanar pelas ruas das cidades, parando aqui para ver um padeiro distribuir pães com os pombos, que pousavam em todo seu corpo, transformando-o literalmente em homem-pombo, esptáculo que se via todas as tardes quando saía para entrega de pães aos bares e cafés; Ou ouvir o embate de dois cantadores de improviso, que ao rítmo do martelo e som dos pandeiros, se atacavam mutuamente, com ditos chistosos e às vezes duros mesmos, levando a assistência ao delírio. Isto se vê em todo o Nordeste. É o teatro popular na mais lídima representação; Ou ainda ver os clochards perambulando por toda parte, com sua inseparável garrafa de vinho. Passear nas ruelas estreitas do Alfama, ouvindo o som do fado tocado nos bares e restaurantes.

O Cidadão do Mundo

Lundi 3 mai 2010

          Não se quer aqui relatar fatos que não tenham ligação com nossos herois, mas não se pode deixar de relatar fatos que, embora não se relacione diretamente com nossa estória, por certo influenciaram o comportamento de nossa gente.  Assim seria de se dizer em que tempo  e onde  tudo se passou. Não se quer fazer suspense à moda Hitchcock, porque acho ser ele inimitável, mas, convenhamos, se eu disser tudo de vez a estória perde o interesse, portanto, vamos por etapa. Eu ainda nem terminei os primeiros capitulos e por isso, esperemos. Muita coisa virá para deleitar o leitor ávido de novidades.

 

O Cidadão do Mundo

Mercredi 24 mars 2010

O violão parou e o cantico dos fieis. Um coro entoou o tantum ergo, puxado por um órgão, tão divinamente tocado que as pessoas esqueciam o dia a dia, as agruras da vida. Nosso casal discutia o que não se podia ouvir. De longe se viam os gestos de desespero da mulher e a indiferença do homem. Nada apontava para um desfecho trágico, entretanto. Nosso homem se dirigiu à janela da sacristia. Dela se via uma área que parecia um pequeno campo de futebol, porque havia duas traves de cada lado, entretanto, no meio do campo havia uma grande árvore, cujo tronco seria preciso vários homens para abarcá-la, tão grossa era sua circumferencia. Ali passara um período da sua vida. Ajudara a construir o muro de pedra que sustenta o aterro feito para o pequeno campo de futebol, onde os garotos, se exercitavam todas as tardes para esquecer os momentos duros de um claustro.

O Cidadão do Mundo

Vendredi 2 octobre 2009

Um retorno à cidade e se vê um homem andando no meio da multidão. Parece preocupado e alheio às pessoas. Seu andar é um pouco indeciso. Traz uma pequena mochila às costas. Pára, de vez em quando, para observar as pessoas, as construções antigas, o mundo ao redor. Observa uma porta bem trabalhada de uma igreja barroca. Meio indeciso, atravessa a multdão de pedintes que costuma ficar à porta da igreja à espera do óbulo dos fieis e do pão dos frades e entra nesta igreja. É um templo ornado com muitos retratos a óleo de santos, beatos e veneráveis da Ordem do Capuchinhos, que depois soube ser aqueles quadros obra do pintor baiano Teófilo de Jesus, além vários jazigos de personalidades da Bahia.  Tempo em que se  enterravam os fieis na própria igreja. Uma missa está sendo rezada. Um velho padre levanta a hóstia. Ele observa um altar lateral. Uma figura de Santo Antonio segura o Menino Jesus. Uma velha faz uma genuflexão. Ele se dirige ao centro da nave  e se senta no banco perto do altar-mór, onde o padre diz a missa. Põe a mochila no colo e fica por uns minutos com a cabeça baixa como a meditar. Os fieis se lavantam para a eucaristia. Formam fila para comunhão. Uma mulher se aproxima dele. Ela é alta, magra, elegante e bonita. Parece ter trinta e quatro, trinta e cinco anos. Veste um vestido de tom escuro e sóbrio. Senta ao seu lado, como por acaso, como se não o conhecesse. Permanece em silêncio por uns minutos. O padre os observa de soslaio e demonstra uma certa preocupação. Ninguém, a não ser o padre, percebe qualquer coisa entre eles. Olham-se como não se conhecessem. A mulher agora parece um pouco intranquila. Não dizem, porém, qualquer palavra. Ele se lavanta e vai em direção à sacristia. Os fieis, puxados pelo padre entoam um hino sacro, que é cantado ao som de um violão indolente e triste.  Estamos na sacristia. Nosso homem admira o piso. Um taboado secular onde se vê uma tábua de mais de um metro de largura compondo o piso. A mulher entra na sacristia.

- Você voltou pra quê? Pra me fazer sofrer? Diz.

- Não, voce sabe que não é isto. Voltei porque preciso voltar. Voltei porque cansei. É só. 

- Você podia muito bem descansar em outro lugar. Você voltou para quebrar a paz que eu construi.

- Não seja dramática. A vida  de hoje não cabe mais dramas.

- Para você é facil dizer isto, porque passou a vida se divertindo, mas eu…

O Cidadão do Mundo

Jeudi 1 octobre 2009

Depois de um olhar panorâmico sobre a cidade, vemos se aproximar pouco a pouco o  prédio onde se encontra nosso homem. É um prédio redondo, inteiramente redondo,  destacando-se dos demais, simples arranha-céus em formato de caixa de fosforo, monótonos e enfadonhos. Ele está olhando para o mar. Vemos parte de seu corpo. Só da cintura para cima. De perfil, seu nariz aquilino faz angulo com a janela em que se encontra. Ouve-se um leve xuá-xuá das ondas batendo no sopé do prédio, cujas colunas foram construídas adredemente para surportar o embate das águas. Na praia, algumas pessoas vêm chegando. Um pouco mais além, algumas embarcações pairam sobre o mar, presas à suas ancoras, balançando-se ao sabor das ondas. Um marinheiro sai do interior de um barco com uma frigideira na mão como se estivesse a procurar algo. Cá, nosso homem permanece impassível diante de toda aquela cena. Ouve-se vozes diversas e uma suave toada nordestina invade o ambiente. Voltando-se, nosso homem  vê entrar duas jovens em trajes de praia.

- Larga esta preguiça e vem pra praia com a gente, diz uma que parece mais íntima.

- A praia está uma delicia, você vai gostar, diz a outra um pouco mais acanhada.

- Não sei se deveria. Na verdade, eu prefiro ver o mar daqui de cima. É menos perigoso.

- Não há perigo de nenhum tsunami, e se houvese, nem aqui você estaria a salvo.

- De tanto andar no mundo, enjoei de praia. É tudo igual. O mar sempre salgado. A areia sempre chata. O que salva são as gatas.

- Você e seu machismo. Os homens…

 

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