Mumia Abu-Jamal

23 mai 2012

Mumia Abu-Jamal 507732VALE A PENA LER:

Fonte: agência de notícias anarquistas-ana -

http://noticiasanarquistas.noblogs.org/

Durante o protesto pela libertação de Mumia Abu-Jamal do lado de fora do
Departamento de Justiça em Washington, DC, no último dia 24 de abril, foram
lidas pelo menos duas mensagens dele e também de vários outros presos
políticos. A seguir reproduzimos umas das falas de Mumia na passagem do seu
aniversário de 58 anos.

LEIA A MENSAGEM:

Queridos irmãos e irmãs,

Com o passar dos anos, havia me esquecido de meu aniversário, e só o recordava
quando minha mãe, minha esposa, minhas filhas e filhos me enviavam um cartão.
É que no corredor da morte cada dia é como qualquer outro. E passar um dia com
vida é a única forma de saber que não está morto. Custou anos de trabalho duro
fazer do meu aniversário o que é hoje em dia – parte de um movimento, graças a
todos vocês e ao Comitê Internacional de Familiares e Amigos de Mumia Abu-Jamal
(ICFFMAJ, sua sigla em inglês).
Agradeço a todas e a todos por sair às ruas hoje. Não importa se há 10 pessoas
aí, ou 100, 200, ou muitas mais.
Nos reunimos aqui hoje porque queremos justiça, e para usar as palavras do
velho Partido Pantera Negra: Queremos liberdade. Queremos a abolição da pena de
morte e a abolição do castigo de isolamento prolongado. Queremos o
desencarceramento e a destruição do complexo carcerário massivo.
Estados Unidos é a prisão do mundo. E se pensarem bem, os EUA aprisionam uma
quantidade desconhecida e incontável de pessoas em prisões em toda parte do
mundo – locais obscuros onde os seres humanos vivem em silêncio, a tortura, a
morte. É o mesmo país que sabe que seus tribunais são injustos, mas não faz
nada para mudar a situação.
Aqui neste país, um juiz disse: « Vou lhes ajudar a fritar esse
preto ». Falou na presença de uma estenografa do tribunal, que relatou isso
sob juramento. Uma empregada do tribunal. E nenhum tribunal nos Estados Unidos
jamais condenou isto. É o mesmo juiz que disse em julgamento aberto: « A
justiça é apenas um sentimento emocional?. Repito: A justiça é apenas um
sentimento emocional. Proferiu o juiz Sabo em minhas audiências de 1995. E com
respeito à seleção dos integrantes do júri, o tribunal usou todos os velhos
truques para evitar o cumprimento de seus próprios pareceres. Nunca
questionaram a retirada de negros qualificados do grupo de candidatos a júri.
Os casos jurídicos dizem uma coisa, enquanto os tribunais dizem outra. Ou, como
em meu caso, o tribunal inventou novas regras para justificar sua negativa a
ordenar um novo julgamento.
Nisto não estou sozinho. Fizeram o mesmo em um caso chamado Commonwealth versus
Robert Cook. E a Suprema Corte estatal da Pensilvânia fez o mesmo em um caso
chamado Commonwealth versus Willie Sneed. Sob o caso Batson de 1986, estes
homens deveriam ter tido um novo julgamento há muitos anos. Mas permanecem no
corredor da morte.
Não se esqueçam dos homens e mulheres no corredor da morte. Sigam lutando para
abolir a pena capital.
Atualmente, há uma nova proposta para abolir a pena de morte na Califórnia. Ali
há [723] pessoas no corredor da morte, mais do que em qualquer outro estado do
país. Se os eleitores aprovarem o referendo, este será um símbolo poderoso de
abolição.
Então não só os agradeço, mas lhes incentivo que sigam com a transformação
desta nação carcerária. Lhes incentivo a transformar o complexo industrial
carcerário. Me sinto orgulhoso de fazer parte deste movimento e estou orgulhoso
de cada um de vocês.

Nos movamos! Viva John África!

Libertem os 9 do MOVE!
E libertem a nação encarcerada!
Da nação encarcerada, sou seu irmão – ah!, em seu aniversário, Mumia Abu-Jamal

 

CABINET JURIDIQUE

3 janvier 2012

KADDAFI

21 octobre 2011

En voyant les images de Kaddafi qui n’est pas convaincu qu’il a été une victime de crimes de guerre?

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS

5 mai 2011

Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da  Assembléia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948 

Artigo X  - Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.     

COMPLEXO DE BASTARDIA

1 avril 2011

 

COMPLEXO DE BASTARDIA

Quando comecei a me entender por gente, uma coisa que me intrigava era o fato de não conhecer todos meus parentes, principalmente meus ascendentes.

No Brasil, salvo algumas famílias privilegiadas, o máximo que se conhece são os bisavós.

Quando comecei a ouvir falar de Freud, Jung, Lacan e outros estudiosos da alma humana, me passou pela cabeça estudar um dia a população brasileira do ponto de vista psico-social.

Não foi o que aconteceu porque meus estudos tomaram outro rumo, mas a idéia nunca me saiu da cabeça e alguma coisa tenho escrito e anotado sobre o que chamo de complexo de bastardia.

Entendo por complexo de bastardia um conjunto de pensamentos, idéias, atitudes e comportamentos do povo brasileiro que parece único na cultura dos povos e que parecem derivar do fato do brasileiro não conhecer suas origens.

O povo europeu quando chegou à América e especialmente ao Brasil já convivia com a escrita por muitos séculos, entretanto quando aqui chegou encontrou uma civilização que não conhecia a escrita. Aliado a isto, as condições de colonização eram extremamente difíceis o que tornaram mais a manutenção

30 LITS MEDICALISES

31 mars 2011

 

 

http://www.youtube.com/redirect?q=http%3A%2F%2Fechangesfrancecapvert.spaces.live.com%2F&session_token=_d64ZTH5aWfLXMMEeUmvXJatSDR8MTMwMTY2ODk1NQ%3D%3D

 

http://assosefcv.wordpress.com/

 

freedom

24 février 2011

Keep freedom free. 

NOITE EM PARIS

16 février 2011

 

 

Fazia um friozinho e chuviscava. Ele parara em frente ao Eléphant Blanc. Esperar. Logo estiará. Eram, talvez, duas horas, ou menos. Outras pessoas ali se encontravam. Esperavam, silenciosas, a chuva passar. Um homem baixo, de careca luzidia, de roupas modestas, parou em sua frente e de costas, coçando seus perigalhos, comentou sobre o tempo. Eterno tema das conversas dos que nada têm a dizer. Tempo, Tempo. Eró, Eró. Tempo, Tempo.  Não me comas, não me devores, meu pai. Eu quero viver. “Oh quero viver, beber perfumes na flor silvestre que embalsama os ares”.  Eu quero a eternidade. Mecanicamente respondera àquele homem, convicto de que conversas passageiras não eram propícias para se iniciar uma amizade e isto era o que lhe interessava, pois sabia das dificuldades em se fazer amigos na França, e mais ainda, o quanto era difícil conservá-los. Como ser amigo de um clochard? De uma pessoa que não tinha morada e não se sabia onde procurá-la nas dificuldades? Não. Não era um mendicante. Flanava, apenas, flanava. E se fosse, iria precisar de um cloche? Si. No. Não lhe interessavam suas porandubas, nem pabulices, mas batera um papo. Era difícil encontrar alguém para papear. Sua vida transcorria em monólogos. Sem sons. Para que abrir a boca? Não havia ouvidos. Aquele homem percebera o estrangeiro. Talvez, também ele, um meteco em sua terra. Não. Não era um árabe. Mourisco das tabas tupis, alóbrogo desdentado. Il n´etait pas un pied-noir. Non, il n´etait pas un mexicain, non plus. Il s´agit d´un brésilien. Le Brésil. Le carnaval de Rio. Disse ser do sul e talvez entendesse um pouco de português porque sabia algumas palavras do provençal, la langue d´oc. Orgulho nos olhos ridentes. Alguma semelhança entre o português e o provençal? Existe ainda,  falantes desta língua? Dela sabia apenas que tal qual o francês o u se pronuncia abrindo-se a boca para dizer ‘u’ e ao contrário dizer ‘i’, saindo um som semelhante ao ‘ü’ alemão. Acabava de aprender que bouche se diz boca como em português, une boca; Que nuit se escreve nuet, noite, e se pronuncia nué; dia não é jour mas jorn e se pronuncia dzur, pois o j e g se pronunciam dz; Ch se diz ts; Paraxítonas las palabras finitas em un, a, e, o, as, es, os. Saberá que Frederico Mistral, escrevendo em provençau, tornou respeitada a língua occitana. Dias virão em que lerá o Miréio: « Cante uno chato de Prouvènço./Dins lis amour de sa jouvènço ». « Canto uma jovem da Provença. E seu amor de juventude« . E lerá um dia a súplica dirigida ao rei René em 1474: Très soveyran et tres haut prince, A la vostra sacrada real majestat, humilment et devota si expausa… »

Uma rajada de vento e água. O velho recuou tocando-lhe. No sexo. Entendeu tudo. Não era isto que estava procurando. Tinha estado em alguns bares, mas não fora posto em almoeda. Não estava em almunada. D´Alliance Française, no Boulevard Raspail, onde estudava e lavava pratos, fora ao Trait-d´Union, na rua de Rennes. Sorveu o primeiro trago. Traçar  destino  para a noite. Daniel,  coxo, cochon não, dançava a bandeja em suas mãos, gritando comandas, pedindo  contas, agradecendo  gorjetas. Estivera na Buate Grise. Ouvir cantar Pernambuco. Passara n´A Feijoada, Quai de l´Hotel de Ville, onde fora mirmidão e escansão, por vezes. Dar um abraço em Normando, rir das piadas de Claude e das reclamações de Madame Faure, implicando com ele, Claude. Pardon madame, pardon, dizia o garçon saído dos Halles, amantapaixonado  pela bela. Cantar a bossa nova que Normando lhe ensinara a tocar, nas folgas de segundas, d´A feijoada.  Ensaiara cantar: « Guarda a rosa que te dei, esquece os males que te fiz. Timidez?. O pianista, da Martinica negro, reclamava sempre. Fora de ritmo. Falta de ritmo é timidez, ou um  problema de respiração? Não seria justamente a música capaz de curar a timidez?  Bela voz, ritmo atropelado. Tinha a compreensão e o carinho de Pernambuco. Bebera, bebera e bebera. Não lhe olhavam as loiras nem as morenas. Em vão. Tímido para a abordagem. Sozinho mais difícil a conquista. Não era um pédé. Não. Ele não dissera isto. Queria apenas sucer sa bite. Não. Aqui na rua, descaradamente assim? Qu´il n´y avait personne. Tous sont rentrés. L´Elephant Blanc fazia congé, nesta noite. Seus fregueses foram beber em outra freguesia o grogue reconfortador. Não, definitivamente, não. Iria voltar a seu quarto. Seu runcó. Subiria os sete vãos de escada do 16 rue d´Assas. Dormindo estaria Madame Zurflux e seu fiel kiki. Dormindo estaria Mademoiselle Zurflux. E Concepción, a solícita ménagère. La concierge botaria os olhos para ver quem estava entrando. Nunca dormem as concierges. Poria um disco na vitrola. Aquela que lhe presenteara a namorada, dedicada esposa do italiano. Lembraria o dia em que a conhecera ao comprar-lhe amendoim na avenida Saint Michel. Est-ce-que vous jouez de la guitarre? Por acaso tocava, sim, violão. Claro, dar-lhe-ia aulas de violão. Talvez não tocasse tão bem, não fosse capaz de tocar-lhe o Concerto de Aranjuez. Ou igualar Turíbio Santos num Estudo de Villa-Lobos. São Turibio, não o de Mongrovejo, apóstolo do Peru. O do violão, admirado e louvado em todo mundo. E que dizer de Baden Powell, o mágico do pinho? Baianinho, bota aí uma dose daquelas. Preparar a garganta pr´aquela feijoada caprichada. Saberia, planger as primeiras notas.  Só as primeiras notas. Um ré menor, um lá menor, um mi menor. Os tons menores são mais românticos e mais tristes. Os tons dos apaixonados. A música de quem tem dor de cotovelo.

Sim, subiria ao seu quarto. A camarinha como dizia Nanã. Lembraria o verde mar bravio de sua terra, azulverdelaranja, ai, sonho imberbe do noviço, recém-saído do Vieira, colégio dos jesuítas, revindo de Itambé, ninho vocacionista, onde fora jogado pela Ordo Fratrum Minorum Cappucinorum da Província da Piedade da Bahia. Volto para ti doce  amour de ma jouvènço. Oxalá, esteja eu vivo após esta travessia, Inch-alah. Lembraria teus cabelos cor de oiro, o sorriso qu´eu queria conquistar à ponta de espada. Ai. Lembraria o dia do não no Duque,  na garganta preso o choro,  mãos frias e corpo em transe,  mundo  em giro e voz caindo,  vertigem, surdez e raiva, amor ferido  e  orgulho, caminhando rua afora, rua aqui rua acolá, aula de latim perdida, ruas estreitas e negras faces, na multidão escassos passos, cores pardas, cinzas, negras. Nem voz, nem som, nem sinos de igreja. Mar revolto, águas de março, Ab7.  Teu fantasma. Pisa m´ia sombra, toma meu pulso, meu coração assalta. Ai Mar, tão longe e tão presente, ai, doce mar, quem te acalma, doce mar de minha terra natal, mãe e pai de todos nós, aplaca tua ira, águas de março, Bb7/E.  Ai, primeiro grito de amor, vence as barreiras do som, diz a ela que de longe, pode morrer a voz, pero não o sentimento, que veio sem ser pedido, mas aqui vai transmitido, como cantigas de amigo de um trovador solitário. Conta-lhe d´estranhas terras,  andanças, desencantos e encantamento, fome, fadiga e frio. Das noites de bar em bar, procurando sem achar, um cálice de vinho amigo. Conta-lhe esta odisséia, como Enéias contou a Dido. Ai marvada não  me devores. Posso contar tua história.

            No seu quarto, tomaria um copo de Porto. Esquentar o frio. Deitar-se-ia ouvindo tranquilamente Mozart. O Divertimento em ré maior, K334, do poeta que em l779, na velha Salisburgo, num rasgo de inspiração, compôs para o deleite da posteridade. Era cedo. Ainda não passara o leiteiro. Dormiria um pouco e voltaria à rua. Buscar sua cota de leite na mercearia. Não. Não era um clope. Não era um ladrão. Hermes, o Trimegisto, sabe disso, mas  há de protegê-lo. Fazia sua redistribuição da riqueza. Não como Robin Hood, porque não havia Ricardo, nem coração de leão, nem selva para salvá-lo, e sim para perdê-lo de miríades corações de pedra. Os franceses entregam o leite nas padarias e mercearias na madrugada. Como nas residências, deixavam os pacotes empilhados em frente à porta. Pegava sua parte todas as noites. Era preciso comer. E comer exige luta. A arma do fraco é o ardil, senão morre. Toda arma é lídima, se prá salvar a vida. Deixar passar aquele casal de namorados, levém um clochard, atrás mais outro, mais outros, como cáfila, andam. Em seu quarto lhe esperavam a baguete e a manteiga, esta, surripiada no marché à cotê. Não tremer como lhe dizia o amigo Luiz. Se tremer o francês vê, como quase viu no dia em que roubaram chocolate no mercado. Ou no dia em que te pegaram roubando um livro de Pierre George. A mão do segurança sobre teu ombro. Não. Não tinha esquecido nada. A prova do furto. O livro sob o capote. O caminho para delegacia. O caminho para seu quarto. Os gritos dos policiais. Inda bem que não viram a navalha, arma da capoeira, camuflada n´algibeira. O aljube seria certo, oh meu Deus,  Deus meu, me valha. Polícia, igual em todo mundo. Como bem disse Maradona, (não se leia marafona),  imbecis há em toda parte. Não mataram Sacco e Vanzetti? A deportação, que medo.  A Volta,  vergonha, vencido. Por-lhe-iam num barco de terceira. A viagem, a náusea e a chegada. O vômito voando sobre si, caindo no mar profundo, pede vênia velha senhora. Me desculpe, lhe desculpa. Vomitar também vomita sobre o  azulmarchando canal. Dom Quixote não mancha, de la Mancha. Que perguntas que tu lhe  fazes? Que perguntas tu lhe fazes, Paris?  Luzes suas, saudade. O bulício de seus bares.  Aprendizado sofrido.   Fumo,  vinho e  cerveja. Ah, a cerveja. Lembranças lá d´ Aroeira.  Chico de Anjo, do Paraná, chegando. Desce mais uma, João. Tome-lhe cerveja quente. Geladeira, coisa rara no sertão sem energia. Gritam, assustadas, mulheres desacostumadas. Virge, virge, bicha marguenta, até mijo parece, crendeuspadre. Un demi. Un panaché. Dizem  os franceses  saboreando-a sem parar. As discussões. Cinema, teatro e literatura. E política e política e política. Daria tempo de avisar a Chantal? Dar(get)-lhe-ia o violão,  o berimbau. Um regalo. Devolveria a radiola a Louise. Que brigasse o italiano bigodudo quarantene. De bigode entendia desde os tempos do Vieira. Bigodinho, professor de matemática, não assustava ninguém. Só padre Hugo, com suas equações, infligia terror à turma apavorada. A máquina de escrever, deixaria para Novelli, se Alberto Sergio não a tivesse comprado. Que deixasse os pincéis por um momento. Escrever um poema. Os livros de política para o Ortega. Fazer, com seus camaradas sandinistas a revolução na sua Nicarágua, derrubando o ditador Somoza e sua Guarda Nacional. Não esquecer. Poesia e teatro para  David,  neozelandês que não é maori, galego de zói azul, despido de tatuagens. Perdoá-lhe-ia por não lhe ter apresentado a petite allemande? Quanto infantil fora ele, quando juntos comeram moules, em Fontainebleau foram parar, ainda moles do vinho, quando simplesmente poderia, parar na cama com ela. La petite allemande. De vero não sabia, que a ela se referia David. Perdoá-lhe-ia por isso? Também ele nada fizera. Ficou na garganta o desejo. Dupla timidez ou tripla. Nem ele, nem ela, nem eu.  Tamáriki, āe, tamáriki. Crianças, apenas crianças, soa o maori da Polinésia. De cinema, os livros para Iushiro. O zapon agradece. Arigatô. Saudades de Ikuko na libertária Amsterdão, das tulipas, das papoulas, de Bento Espinosa. Quem te disse que não te quero hana flor d´Oriente? Tu, meu hanami querido. Sinto não te ter tido em meus braços, escondida na tua timidez. O tempo, comedor de gente, passa e com mil línguas, qual medusa,  nos arrasta, garganta sua profunda, em caminho sem saída, sem volta, sem retorno. Viver é agora, dizia sem convencer nem a si mesmo. Quando iria rever amigos deixados lá? Seu berimbau? Talvez o único existente em toda Paris. Quanto deve a seu berimbau. O toque n´A feijoada de Madame Faure e o toque em Brigitte. Brigitte Bardot, Bardot. Brigitte beijou, beijou. Lá dentro do cinema todo mundo se afobou. Seus passos,  trejeitos dança amizade. Quer Dançar Comigo? Ensina-me dançar o samba, ouvi de sua voz. Je veux samba, Je veux samba, oui,oui,oui,oui,oui. Ai. Brigitte, bela marvada. Ammite, devoradora de homens. Despedaça coraçõesvadim que despedaçava corações em todo o mundo.  Bastava ver uma foto sua, um filme onde as linhas ondulantes se mostrassem mais sinuosas qual um rio preguiçoso ondeando no vale sem fim. Vence a fera, a fera vence. O verbo cortado na garganta. A bela encanta. O encanto do caminho da serpente que se não desencanta, sob  olhar e giros do dervixe. Olhos grudados na sua boca entreaberta para o mundo. Cunhã maira, feiticeira d´além mar. Vaporosa Brígida. Dá teu Grito no Silêncio. Perdido n´amplidão do espaço, ninguém te ouvirá. Retorna aos anos de glória e glamour. Não sejas  mensageira do mal, arauto da discórdia como Isfet. Quando morreres e te apresentares no Salão de Julgamento perante os Deuses, teu coração pesará mais que a pena de Maat que te enviará para seres devorada por Ammit, a devoradora de humanos. Ele não sabia que um dia ela iria lançar seus dardos contra imigrantes, negros, mestiços e mulçumanos. Que seu furor pela defesa dos animais era um disfarce para esconder sua xenofobia e seu desprezo pelo ser humano. Que um dia ela iria se preocupar mais pela sorte dos cachorros no Egito do que pela morte de pessoas na Palestina. Et Dieu…créa la femme. Deus criou a mulher?   Madame Brigitte Anne-Marie Bardot que desprezo. Camille Javal, tu não irás à guerra, BB. Lembrou-se de seu berimbau, seu gunga.  Gunga Din não. Seu gunga, o de biriba, não o traírindiano  do  Kipling.  Como o amava, e as cantigas ensinadas por seu mestre Canjiquinha, invencível no toque do berimbau. D´outro mestre, Waldemar.  calça branca, quadriculada camisa, no pescoço, vermelenço, en su cabeza, baêta. Esse Gunga é meu, eu não dou a ninguém. Esse gunga é meu, foi meu Deus que me deu. Esse gunga é meu. Panha laranja no chão tico-tico. Adeus, adeus, boa viagem, eu vou m´bora, boa viagem. Seu berimbau, seu toque. Angola rastejando como cobra. São Bento Grande veloz, Bento Pequeno manhoso, Angolinha astucioso, Samango, olha a polícia rombora. Seu Berimbau, seu abre-te Sésamo. Se ele estivesse ali. Delindo esperanças, o delegado interroga. O encanto da serpente. Os gritos dos policiais. Como pode? Um estudante de direito, ladrão, como pode? As lágrimas, não, de crocodilo, veramente lhe corriam. Não fora educado para o mundo, o mundo de aparências, mas d´essências. É muito mal, pois não aprendeu a regra do jogo, não ganhou régua e compasso. E sofre quando outros riem e gozam, gozam e riem. Nem imaginaria que um dia iria sofrer por uma formação ferrenhamente cristã, em que se cultivara o amor, o respeito e a honestidade. Nunca imaginara  ser atacado um dia, justamente por pessoas desonestas e violentas, que confundiam humanidade, retidão de espírito com babaquice e covardia. Não era um cobarde. Ê Mundacho Torto, profundo baixo, gigante, frei capucho Teodoro, ouço-te de Bach Toccata e Fuga, na Piedade em Ré Menor. Me ensina cantar o Réquiem, de preferência Mozart. Me ensina contar o tempo, somar, multiplicar, solfejar, multiplicar. Ali estava  o princípio. Aqui  seu primeiro pleito.  Puxa da pena  o perdão. Deliu-se o furor policial. Vence a emoção, cala a razão. Vencer, venceu,  mas será sempre assim? Prejudicada, quase, a prova de Geografia do professor Pierre George, no Boulevard Arago. Ah, meu caro mestre, conhecedor do mundo inteiro, se tu soubesses  o quanto é duro nascer no Nordeste Brasileiro. Inventam os gregos a tragédia que o nordeste vive agora, com seus beatos e devotos, cangaceiros e jagunços, cantadores e pade Cíço, secas, fugas e paixões. Sant´Esquilo. São Sófocles. Sant´Eurípedes.  Orai por nós que recorremos a vós. Não. Sê firme. E viverás. Mesmo que nem tenhas tido teu primeiro amor  de juventude. Mesmo que te tenhas recolhido ante a estonteante Brigitte. Mesmo que não tenhas  tido em teus braços a bela flor d´Oriente. Mesmo que te tenhas calado ante a petite allemande. E os olhos de Chantal? Seu sorriso em noite extrema, na dança do carnaval. Tu a tivestes, afinal? Mesmo que não. Mesmo que. Ai, marvada sorte fortuna, por que tu não me escolhes Ganeça, filho de Pavarti, deusa, de Shiva esposa?  Por que tu me deixas nos braços do malvado Elegbará Set Exu? Por   que   tu não me levas, Onipotente Zeus, pra no Olimpo servir, tal  como tu levastes o troiano Ganimedes? Não. Sê firme. E viverás

Continuação no livro Noite em Paris, breve nas livrarias.

O Cidadão do Mundo

3 février 2011

Para quem correu o mundo e viu greves de trabalhadores, batalhas urbanas do povo contra homens do poder, nevascas e terremotos, vulcões irados expelindo lama ardente, tempestades enchendo rios e destruindo cidades, ondas de crentes pisoteando-se enquanto  pediam  a Deus perdão por seus pecados, tudo o mais é café pequeno. Quem não está acostumado a sofrer, como é o caso do povo brasileiro, não pode entender o que se passa no mundo. Na terra do futebol, carnaval e novelas tudo é alegria, até o sofrimento alheio. Onde se chora, aqui se ri. Quem tem qualquer defeito é ridicularizado, gozado, pirraçado até a exaustão.  O estrangeiro nunca entenderá  nossa índole.

O Cidadão do Mundo

8 juin 2010

Não pretendo fazer qualquer  relação com o Cidadão Kane. Nosso homem não é tão poderoso ou tão emblemático quanto o personagem de Orson Welles, é, talvez, tão arrogante quanto aquele, mas sem o poder caracterísitco do Kane. Nascido pobre, chegou à fama e à riqueza usando mais a cabeça do que os braços, e até se considerava um pouco preguiçoso, quando se comparava com as demais pessoas que o rodeava. O que gostava mesmo era de flanar pelas ruas das cidades, parando aqui para ver um padeiro distribuir pães com os pombos, que pousavam em todo seu corpo, transformando-o literalmente em homem-pombo, esptáculo que se via todas as tardes quando saía para entrega de pães aos bares e cafés; Ou ouvir o embate de dois cantadores de improviso, que ao rítmo do martelo e som dos pandeiros, se atacavam mutuamente, com ditos chistosos e às vezes duros mesmos, levando a assistência ao delírio. Isto se vê em todo o Nordeste. É o teatro popular na mais lídima representação; Ou ainda ver os clochards perambulando por toda parte, com sua inseparável garrafa de vinho. Passear nas ruelas estreitas do Alfama, ouvindo o som do fado tocado nos bares e restaurantes.

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